O que é a PHDA?
Quando se fala em Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), é frequente pensar-se numa criança que “não presta atenção”, “não consegue estar quieta” ou “age sem pensar”. Embora estas características possam fazer parte da PHDA, esta perturbação é bastante mais complexa.
A PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento que envolve dificuldades persistentes ao nível da atenção, impulsividade e/ou hiperatividade, com impacto no funcionamento da criança em diferentes contextos. Mas compreender estes comportamentos implica olhar para aquilo que está por detrás deles: a capacidade de regular o próprio comportamento.
“Eu sei que não devia… mas fiz na mesma.”

Uma das ideias centrais do trabalho de Russell Barkley é que a PHDA não deve ser entendida apenas como um problema de atenção. Para este autor, uma dificuldade particularmente importante está na inibição comportamental: a capacidade de parar uma resposta imediata para conseguir pensar no que fazer a seguir.
É essa pequena pausa que permite transformar: “Apetece-me fazer isto” em “Espera. O que é que faz sentido fazer agora?”
Quando esta capacidade está comprometida, a criança/o adolescente pode ter dificuldade em interromper uma resposta, esperar pela sua vez, resistir a uma distração ou pensar nas consequências antes de agir.
É aqui que surge uma das características mais marcantes da PHDA: a impulsividade. A criança/o adolescente pode interromper, responder antes de ouvir a pergunta até ao fim, levantar-se, agir sem pensar ou tomar decisões rápidas que posteriormente reconhece não terem sido as melhores. E esta dificuldade em travar uma resposta imediata não se manifesta apenas no comportamento; pode também tornar-se particularmente evidente quando entram em jogo as emoções e a necessidade de esperar por algo que só terá consequências mais tarde.
O quarto fator: a desregulação emocional
Para além das dimensões contempladas nos critérios diagnósticos, existe outra dimensão frequentemente associada à PHDA: a dificuldade de autorregulação emocional. Embora a desregulação emocional não constitua um critério diagnóstico, é uma dimensão que pode ajudar a compreender melhor algumas das dificuldades apresentadas no dia a dia.
A dificuldade de autorregulação pode refletir-se na forma como as emoções são vividas e reguladas. Perante uma frustração, uma contrariedade ou uma situação de espera, a criança ou o adolescente pode ter dificuldade em modular a intensidade e a duração da resposta emocional.
Pode passar rapidamente da calma para a irritação, reagir de forma intensa perante uma pequena contrariedade ou ter dificuldade em recuperar depois de ficar zangado ou frustrado. Não significa necessariamente que sinta emoções mais fortes do que os outros, mas que pode ter mais dificuldade em “travar” e regular a resposta depois de a emoção ser ativada.
Esta desregulação emocional pode, por sua vez, tornar ainda mais difícil pensar nas consequências, manter um objetivo em mente ou escolher uma resposta mais adequada naquele momento.

Como pode a Psicologia ajudar?
A intervenção psicológica com base na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode ajudar crianças e adolescentes com PHDA a desenvolver estratégias para lidar melhor com as dificuldades de autorregulação. Não pretende eliminar as características da PHDA, mas ensinar ferramentas que permitam gerir melhor o comportamento, os pensamentos e as emoções.
Entre os objetivos da intervenção podem estar:
- Reconhecer e gerir a impulsividade: identificar situações de maior risco e criar uma “pausa” entre o impulso e a ação.
- Desenvolver estratégias de organização e planeamento: utilizar rotinas, listas, lembretes e divisão de tarefas para apoiar as funções executivas.
- Treino cognitivo: trabalhar competências como atenção, memória de trabalho, controlo inibitório, flexibilidade cognitiva e resolução de problemas.
- Regular emoções e lidar com a frustração: reconhecer sinais de ativação emocional e utilizar estratégias para recuperar o equilíbrio e responder de forma mais adequada.
- Trabalhar pensamentos e a capacidade de esperar: identificar pensamentos pouco úteis e desenvolver estratégias para tolerar a espera e adiar recompensas imediatas.
- Treino de competências sociais: desenvolver competências como esperar pela vez, ouvir o outro, interpretar pistas sociais, resolver conflitos e adequar o comportamento às diferentes situações.
- Reforçar a perceção de competência: ajudar a criança ou o adolescente a reconhecer aquilo que já consegue fazer e a construir estratégias a partir das suas capacidades, em vez de se centrar apenas nos erros ou dificuldades.
- Envolver os pais: promover estratégias consistentes em casa, com expectativas claras, reforço positivo e consequências previsíveis, ajudando a criança a aplicar estas competências no dia a dia.
Quando procurar ajuda?
Nem todas as dificuldades de atenção, impulsividade ou autorregulação significam PHDA. Por isso, quando estas dificuldades são persistentes, acontecem em diferentes contextos e começam a interferir com a vida escolar, familiar ou social da criança ou do adolescente, uma avaliação psicológica pode ser um primeiro passo importante para compreender o que está a acontecer.
Quando existe um diagnóstico de PHDA, a intervenção pode ajudar a criança ou o adolescente a compreender melhor as suas dificuldades, desenvolver estratégias de autorregulação e organização e encontrar formas mais ajustadas de lidar com a impulsividade e as emoções. O trabalho com os pais é também fundamental para criar condições que favoreçam a utilização destas competências no dia a dia.
Mais do que procurar apenas “corrigir” comportamentos, o objetivo é ajudar a criança/o adolescente a compreender como funciona, aquilo que lhe é mais difícil e quais as estratégias que podem ajudar a funcionar melhor.
Se reconhece estas dificuldades no seu filho e gostaria de perceber melhor o que está a acontecer, a avaliação e o acompanhamento psicológico podem ser um ponto de partida para encontrar respostas ajustadas às suas necessidades. Fale connosco através do nosso formulário de contacto ou por Whatsapp.

Este é um artigo escrito pela Psicóloga Joana Dias (Cédula OPP nº 25290)








