A ansiedade na infância e na adolescência nem sempre é fácil de identificar. Ao contrário dos adultos, muitas crianças e adolescentes não conseguem colocar em palavras aquilo que estão a sentir. Em vez de expressões claras como “estou preocupado/a”, a ansiedade manifesta-se através de mudanças no comportamento, no humor ou em sintomas físicos persistentes.

Assim, particularmente nos mais jovens, sinais físicos aparentemente sem explicação médica ou alterações no comportamento diário podem ser indicadores importantes de ansiedade. Reconhecer estes sinais é fundamental para que os pais e cuidadores possam intervir atempadamente e procurar ajuda quando necessário.
O que é a ansiedade na infância e adolescência
A ansiedade é uma reação natural do organismo perante situações percecionadas como potencialmente perigosas ou desafiantes. Envolve respostas a diferentes níveis – físico, cognitivo e comportamental – que preparam a criança ou o adolescente para lidar com uma possível ameaça.
Embora frequentemente se confunda com o medo, é importante distinguir ambos os conceitos. O medo surge perante um perigo real e imediato, enquanto a ansiedade está sobretudo associada à antecipação de uma ameaça, mesmo quando esta ainda não ocorreu ou pode não vir a ocorrer. É esta antecipação que torna a ansiedade uma experiência mais complexa e, por vezes, difícil de identificar.
A ansiedade desempenha uma função adaptativa importante ao longo do desenvolvimento, funcionando como um sistema de alerta. Ajuda a criança a avaliar riscos, a proteger-se e a adaptar-se a situações novas ou exigentes. Este sistema é sensível ao desenvolvimento e está também ligado a fatores evolutivos de sobrevivência, mesmo quando já não se enquadram totalmente no contexto atual. Por exemplo, é relativamente comum crianças que vivem em meios urbanos manifestarem medo de determinados animais que apenas veem em contextos seguros, como jardins zoológicos, refletindo mecanismos de proteção herdados ao longo da evolução humana.
Ao longo da infância e adolescência, existem medos e ansiedades que são considerados normativos e esperados para cada fase de desenvolvimento. No entanto, em algumas crianças e adolescentes, os medos e a ansiedade podem tornar-se excessivos em intensidade ou duração, deixando de cumprir a sua função adaptativa. Quando isso acontece, passam a interferir negativamente nas atividades diárias, como a frequência escolar, as relações sociais ou a participação em atividades adequadas à idade, afetando de forma significativa a qualidade de vida.
Os sintomas de ansiedade infantil que persistem para além do esperado e causam impacto significativo no funcionamento diário são considerados perturbações de ansiedade. Estima-se que, em Portugal, cerca de 1 em cada 10 crianças e adolescentes em idade escolar apresente uma perturbação de ansiedade.
Sinais de ansiedade em crianças e adolescentes
A ansiedade pode manifestar-se de diferentes formas, incluindo sinais físicos, cognitivos e comportamentais. Reconhecer cada uma destas dimensões ajuda os pais e cuidadores a identificar a presença de ansiedade de forma mais precisa.
Sinais físicos
- Dores de barriga recorrentes;
- Náuseas ou vómitos sem causa médica aparente;
- Dores de cabeça frequentes;
- Cansaço excessivo ou fadiga constante;
- Tensão muscular;
- Batimentos cardíacos acelerados;
- Sensação de aperto no peito ou falta de ar.
Sinais cognitivos
- Dificuldade de concentração ou atenção;
- Pensamentos preocupantes ou catastrofização;
- Insegurança quanto às próprias capacidades;
- Dúvidas constantes sobre decisões e ações.
Sinais comportamentais
- Irritabilidade e alterações de humor;
- Perda de apetite;
- Evitamento de situações como ir à escola, participar em atividades extracurriculares ou conviver com amigos;
- Alterações do sono, como dificuldade em adormecer, despertares noturnos ou pesadelos recorrentes.

Estes sinais podem surgir de forma gradual e nem sempre são imediatamente associados à ansiedade, sendo por vezes interpretados como “fases” ou problemas de comportamento. Por exemplo, um adolescente que começa a evitar falar em grupo ou participar nas aulas pode ser visto como tímido, inseguro ou pouco motivado. No entanto, este evitamento pode estar relacionado ao desenvolvimento de ansiedade social, especialmente quando existe um medo intenso de errar, de ser avaliado negativamente ou de se expor perante os outros.
A importância dos sintomas físicos associados à ansiedade nas crianças e adolescentes
Um aspeto particularmente importante a considerar é que a ansiedade em crianças e adolescentes manifesta-se frequentemente através do corpo. Os sintomas físicos são, muitas vezes, uma das principais formas de expressão do mal-estar emocional nesta faixa etária.
É frequente que estes sintomas sejam inicialmente investigados em contexto médico. Quando não é identificada uma causa orgânica que os explique, torna-se importante considerar a hipótese de um fator emocional subjacente.
Isto acontece porque as emoções e o corpo estão profundamente interligados. Quando uma criança ou adolescente vive níveis elevados de ansiedade, o organismo ativa respostas fisiológicas associadas ao stress. As crianças, em particular, têm maior dificuldade em identificar, compreender e expressar emoções complexas. Assim, aquilo que não é verbalizado emocionalmente acaba, muitas vezes, por se manifestar fisicamente.
Um exemplo frequente desta ligação entre ansiedade e sintomas físicos é a recusa escolar. Algumas crianças começam a apresentar sintomas físicos intensos — como dores de barriga, náuseas, vómitos, dores de cabeça ou um mal-estar generalizado — sobretudo nas manhãs de escola, à noite antes de ir dormir ou em dias considerados mais exigentes (ex.: apresentações orais). Estes sintomas tendem a aliviar quando a criança permanece em casa, o que pode gerar confusão nos adultos e dificultar a compreensão da sua origem emocional.
A recusa escolar pode estar associada a uma ansiedade de separação, especialmente em crianças mais novas, quando a ida para a escola implica afastar-se das figuras de referência. Noutros casos, pode estar relacionada com outros tipos de ansiedade no contexto escolar, como o medo de testes, avaliações, apresentações orais, dificuldades académicas, conflitos com colegas ou receio de errar ou falhar. Independentemente da causa, o corpo acaba por expressar aquilo que a criança ainda não consegue colocar em palavras.

Quando o stress e a ansiedade se prolongam no tempo, o organismo mantém-se em estado de alerta, o que pode contribuir para o aparecimento ou manutenção de sintomas físicos recorrentes e para o aumento do sofrimento emocional.
Quando devem os pais procurar ajuda profissional
Os pais e cuidadores devem considerar procurar acompanhamento psicológico infantil quando:
- Os sintomas emocionais ou físicos persistem ao longo do tempo;
- Existe interferência significativa no funcionamento diário, como na escola, em casa ou nas relações sociais;
- A criança ou adolescente demonstra sofrimento emocional evidente;
- Não se verifica melhoria dos sintomas após a exclusão de causas médicas.
Identificar e intervir precocemente na ansiedade permite reduzir o impacto negativo destes sintomas e apoiar um desenvolvimento emocional mais saudável. Procurar ajuda profissional não significa que algo “grave” esteja a acontecer, mas sim um cuidado preventivo e ajustado às necessidades da criança ou adolescente.
Como a Psicologia pode ajudar
A Psicologia pode desempenhar um papel fundamental na compreensão e intervenção na ansiedade infantil e juvenil. Através de uma avaliação psicológica ajustada à idade, é possível identificar os fatores que contribuem para a ansiedade e a forma como esta se manifesta no quotidiano.
A intervenção envolve o trabalho direto com a criança ou o adolescente, ajudando-os a reconhecer e nomear emoções, desenvolver estratégias de regulação emocional e lidar de forma mais adaptativa com situações desafiantes. O envolvimento dos pais é igualmente essencial, permitindo criar um ambiente mais seguro, previsível e emocionalmente acolhedor.
O objetivo principal é promover o bem-estar emocional e fortalecer competências que serão úteis ao longo do desenvolvimento.
O papel dos pais e cuidadores
Os pais e cuidadores têm um papel central no apoio à criança ou adolescente com ansiedade. A escuta atenta, a validação emocional e a disponibilidade para compreender o que a criança sente são fundamentais para que esta se sinta segura e compreendida.

É importante evitar minimizar os sintomas com expressões como “isso passa” ou “não é nada”, mesmo quando a intenção é tranquilizar. Manter rotinas estáveis e previsibilidade no dia a dia também contribui para a sensação de segurança.
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A ansiedade em crianças e adolescentes é comum e, na maioria dos casos, tratável. Reconhecer, identificar e intervir precocemente nos sinais de ansiedade é um passo fundamental para apoiar o bem-estar emocional das crianças e adolescentes.
Quando a ansiedade é identificada e acompanhada atempadamente, a criança ou adolescente tem a oportunidade de desenvolver estratégias para lidar com os desafios emocionais, ganhar confiança nas suas capacidades e construir um percurso de desenvolvimento mais seguro e equilibrado. O olhar atento, a escuta e a disponibilidade dos adultos podem fazer uma diferença significativa neste processo.

Este é um artigo escrito pela Psicóloga Joana Dias (Cédula OPP nº 25290)








